“A Igreja deve ser um santuário seguro para vítimas de violência doméstica”, diz ex-policial
28/08/2021 15:59 em Igreja

Mike McCart, um ex-policial e detetive do Departamento de Polícia Metropolitana de Nashville, nos Estados Unidos, que dedicou mais de 30 anos à prevenção da violência doméstica, exortou a Igreja a se tornar um santuário seguro e confiável para as vítimas deste tipo de abuso.

Segundo Mike, violência doméstica é um dos crimes mais cometidos e menos relatados nos Estados Unidos. “A falta de compreensão tem estado no centro de uma resposta fracassada de nossas comunidades para proteger os sobreviventes e seus filhos”, avaliou ele em artigo do The Christian Post.

Um dos maiores especialistas em prevenção da violência doméstica nos EUA, McCart cresceu presenciando o problema social. Seu pai era policial e sua mãe atuava no Ministério Público local e muitas vezes acolhiam mulheres vítimas de violência em casa, até que encontrassem um abrigo seguro para elas.

Em 1994, o ex-policial formou o que se tornou o maior programa de intervenção contra a violência doméstica do país. Combatendo a violência contra mulheres e filhos, Mike constatou através de dados que a prevenção exigia uma mudança de paradigma. 

“Se tivermos sorte, apenas 1 em cada 2 sobreviventes de violência doméstica contará a alguém o que está acontecendo. Por que? Porque eles não confiam que o sistema de justiça criminal, local de trabalho ou igreja serão responsivos a eles - para ajudá-los ou mantê-los seguros”, explicou.

Mike McCart afirma que a Igreja deve intensificar o combate contra a violência familiar e intervir em casos na comunidade ou na congregação. “[As igrejas] devem ser um espaço seguro onde a vítima sabe que será ouvida, compreendida e que terá os recursos vitais necessários para estar segura e protegida”, exortou.

Como a Igreja pode ajudar

O ex-detetive explicou como as igrejas podem ajudar na prevenção e no combate a violência doméstica. 

Em primeiro lugar, Mike afirma que os cristãos devem entender que a oração é ativa, ou seja, que Deus nos usa para atender as orações de quem precisa de socorro. “A resposta da Igreja à vítima pode ser a resposta de Deus à oração”, ressaltou. 

Em segundo lugar, a Igreja não deve culpabilizar a vítima, achando que ela provocou a violência do esposo ou que poderia ter evitado. “Devemos dizer aos sobreviventes que não é culpa deles,  que eles não fizeram nada para causar o abuso infligido a eles”, explicou. 

Para isso, Mike pondera que é necessário, como cristãos, abandonar interpretações pessoais das Escrituras e crenças culturais que subjugam a mulher. “Alguns de nós podem pensar que se ela apenas fosse mais receptiva ao marido, certificando-se de que o jantar estava sobre a mesa, e não dissesse o que pensa, a violência iria embora”, disse.

E concluiu: “Precisamos reconciliar a verdade de que ninguém tem justificativa para usar violência ou abuso emocional contra alguém em nenhum momento. Até acreditarmos nisso e nos apegarmos a essa verdade, nos concentramos em responsabilizar os sobreviventes e não os abusadores”.

O terceiro aspecto destacado pelo ex-policial é que a Igreja precisa entender porque a vítima não fugiu de casa e costuma ser o maior defensor do agressor. 

“A vítima frequentemente defende o agressor apenas por sua autopreservação. O principal motivo pelo qual um sobrevivente fica com o agressor é o medo da violência. E isso é bem fundamentado, considerando que 75% dos assassinatos por violência doméstica ocorrem durante ou depois que a mulher sai de casa”, esclareceu Mike.

Amando e protegendo o próximo

Ela explica que apenas dizer para a mulher ir embora de caso é desanimador, porque a mulher ouviu diversas vezes do esposo: "Se você sair,  eu vou te matar”. “Nossa cultura, ignorantemente, diz à vítima para ir embora, enquanto nossas igrejas, ignorantemente, dizem para ela ficar”, criticou.

A igreja precisa compreender que deixar esse ambiente é o objetivo final da saúde e segurança da mulher e que amar o próximo significa cuidar da sobrevivente e/ou crianças nessa situação.

“Os abusadores são mestres na manipulação, eles se concentram em manter o poder e o controle por meio do abuso emocional. ‘Quem acreditaria em você?Quem iria querer você?"’Os abusadores destroem suas vítimas tanto emocional quanto fisicamente”, define Mike.

Por fim, a Igreja deve entender o risco que a violência doméstica pode representar para a congregação, alerta Mike McCart. “Depois que um sobrevivente toma a decisão de sair e busca abrigo, o agressor começa a persegui-lo. E um culto na igreja pode ser a oportunidade perfeita para o agressor atacar o ex-parceiro ou sequestrar as crianças do ministério infantil”, afirma.

De acordo com McCart, casos de feminicídios por violência doméstica aumentaram na pandemia da Covid-19, chegando a 160%, assim como ligações para as linhas de emergência. 

“É do interesse da Igreja - e de suas equipes de segurança - compreender a violência doméstica para que possamos nos tornar um santuário. Mas tudo começa com confiança. E a Igreja deve estender seus braços. Jesus criou o modelo perfeito”, finalizou o especialista.

Fonte: Guiame

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